quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Pescando no aquário dos outros

Tradição, doutrina bíblica e as mudanças nos costumes sociais

Considerando que a tradição, se não for constantemente examinada, pode se tornar legalista e obscurecer os princípios essenciais da fé, impedindo a igreja de responder de forma compassiva e relevante a novos contextos. Considerando ainda que dentro do próprio cristianismo e de outras tradições de fé existem debates significativos e interpretações divergentes sobre esse tema, considero bem vinda essa oportunidade. Há uma complexa e perene tensão entre a preservação da tradição, a aplicação da doutrina religiosa e as mudanças nos costumes sociais. É certo que a tradição e/ou os "usos e costumes" em algum momento, são ou serão tratados como "limites antigos". Entretanto são necessários para conter os extremos da natureza humana, argumentando que, mesmo não sendo estritamente doutrina, eles possuem bases fortes que, se contrariadas, trariam riscos maiores à comunidade. A Bíblia expressa uma posição contrária à aceitação do divórcio pela igreja. Assim sendo, o assunto é visualizado não como uma necessidade (violência doméstica, por exemplo - aqui, digo eu) mas como um mal costume imposto pela sociedade que leva à erosão dos bons costumes e contradiz a doutrina. O equilíbrio entre manter a fidelidade aos princípios doutrinários e responder às realidades complexas da vida humana contemporânea continua sendo um desafio central para muitas comunidades de fé e como a Palavra manifesta a visão de que o novo casamento (sem a viuvez) é considerado adultério, prefiro "errar" por excesso, do que ver, sem se manifestar, a adaptação às normas sociais modernas, pois elas são certamente uma ameaça à integridade espiritual e moral.

Perdão, Agostinho

Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Esse foi o questionamento dos escribas e fariseus de Jerusalém a Jesus de não lavar a mão quando comem... Os costumes recebidos, sem sombra de dúvidas, são norteadores e têm influência. A tradição é demais persuasiva e repassa-se formas de viver e ideias. O perigo para o cristão (digo eu) é ser preso segundo as coisas desse mundo e não de acordo com a Palavra: pela tradição desprezar o mandamento. Há, entretanto, coisas boas nela, entre outras situações, pois mostra-se forte para livrar de más inovações. Por exemplo, a modernidade aponta caminhos de liberdade, que muitas vezes são na verdade são caminhos de libertinagens, nos confundindo... O sinal de alerta deve estar ligado principalmente em relação à quebra de “prisões dogmáticas”, que são limites para nosso próprio bem... A tradição é poderosa e devemos sempre discernir o Mandamento dentro dela, pois ele é eterno... Por outro lado, quando ela contrariar a doutrina bíblica que é a regra de fé do crente, sim, aí devemos com cuidado zelar pelo mandamento e rejeitarmos as suas falsas insinuações. Bem, nesse contexto entra pecado original, como uma suposta herança maldita, divórcio, como algo moderno e avançado, segundo e terceiro casamento, agora são formas de ajustes, pregar o evangelho onde tem igreja é uma forma de “disputa santa”, consagração de obreiros para fins eleitorais e outros, é normal, o suco de uva da ceia, na época de Jesus era sem álcool por causa do termo “fruto da vide” e o vinho com álcool seria então “fruto da oliveira”, ou seja, se transforma conselhos bíblicos em doutrinas? Por acaso a doutrina bíblica precisa de complementos ou remendos? Somos nós agora melhores do que a doutrina Santa? A tradição é muito forte e temos que analisar com cuidado se vale a pena desmontá-la totalmente, pois ela pode estar servindo de “limite antigo” como no caso dos usos e costumes. Bem, pecado original, me desculpe Agostinho (Confissões), que muito contribuiu para o entendimento bíblico e interpretação da Palavra, e ainda contribui, mas o que passa para o ser humano é a morte, morte espiritual.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Provando do fino trigo e mel da rocha

O salmista ao contar a história da libertação do povo de Israel do Egito, lembra do convite divino ao povo a confiar nEle e a expressar as suas necessidades e louvores. Abrir a boca significa clamar e estar pronto para receber o sustento, a orientação e a palavra de Deus, que promete suprir todas as necessidades. O salmo cita textualmente que o Altíssimo "tirou o peso dos seus ombros", uma referência direta à escravidão egípcia e à abertura do Mar Vermelho. Embora o salmo comece com uma celebração alegre cheia de pandeiros, harpas e trombetas, o tom muda bruscamente a partir do versículo 8. O contexto histórico aqui revela uma crise espiritual: o povo mantinha o ritual religioso exterior (as festas e sacrifícios), mas o coração estava entregue à idolatria e à desobediência. É nesse cenário de repreensão amorosa que o Senhor diz: "Abre bem a tua boca, e eu a encherei", lembrando ao povo que eles não precisavam recorrer a deuses falsos ou estrangeiros para ter fartura, pois o verdadeiro Libertador estava pronto para suprir tudo. No Médio Oriente Antigo, o trigo e o mel eram símbolos máximos de prosperidade e favor divino. Quando o Eterno usa estas imagens no encerramento do salmo, Ele está a contrastar a miséria espiritual da rebeldia com a superabundância da Sua provisão. Na agricultura daquela época, o "fino trigo" (ou a "flor do trigo") referia-se à melhor parte da colheita — o grão mais limpo, puro e nutritivo, usado para fazer o pão da mais alta qualidade. Deus não promete apenas a sobrevivência ou o básico para o Seu povo (como o maná no deserto), mas sim o melhor que a terra pode produzir. De igual modo, na Palestina, as abelhas silvestres costumavam construir os seus favos nas fendas das rochas escarpadas e áridas. Encontrar mel numa rocha era um bónus inesperado e valioso num ambiente tão hostil. Assim sendo, Ele é capaz de extrair doçura, nutrição e alegria dos lugares mais secos, duros e improváveis da vida. Mesmo em períodos de "deserto" ou de dificuldade (as rochas), Ele manifesta a Sua graça. Enfim, a escassez que o povo passava era resultado imediato e consequência do desvio espiritual.

domingo, 4 de outubro de 2026

Crescendo perante Deus e os homens

Há a necessidade do cristão crescer de forma íntegra, moderada e completa. Significa desenvolver o caráter de Cristo no dia a dia através da manifestação de frutos. Isso aconteceu na vida de Samuel pois a Bíblia diz: "E o jovem Samuel ia crescendo, e fazia-se agradável, assim para com o Senhor, como também para com os homens" (1 Sm 2.26). O texto mostra que o menino se desenvolvia não apenas em estatura física, mas também no favor e na graça diante de Deus e das pessoas ao seu redor que notavam o seu desenvolvimento (1 Tm 4.15). O amadurecimento e a evolução pessoal não devem ser ocultos; eles precisam se tornar visíveis e evidentes para as pessoas ao redor, servindo de testemunho e inspiração. O próprio Jesus, ao assumir a natureza humana, passou pelo processo natural de amadurecimento físico, intelectual e espiritual: "E o menino crescia, e era fortalecido em espírito, e cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele" (Lc 2.40). Todos os anos, a família de Jesus viajava de Nazaré a Jerusalém para a festa da Páscoa, cumprindo a Lei de Moisés. Aos 12 anos, de acordo com a tradição judaica da época, o jovem estava na idade de transição para se tornar formalmente responsável pelos seus atos religiosos perante a comunidade (um prelúdio do que viria a ser o Bar Mitzvah). No final das festividades, Maria e José iniciaram a viagem de regresso a Nazaré em uma grande caravana de parentes e conhecidos. Pensando que o menino estava entre o grupo, caminharam um dia inteiro antes de dar pela sua falta. Ao notar a ausência de Jesus, voltaram a Jerusalém para procurá-lo. Jesus estava sentado no meio dos doutores da lei — os maiores teólogos, rabinos e mestres do judaísmo da época. Ele não estava a pregar com arrogância, mas a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas, demonstrando profundo respeito e interesse pelas Escrituras. O versículo 47 destaca que "todos os que o ouviam admiravam-se da sua inteligência e das suas respostas". A sua sabedoria não era mero acúmulo de regras, mas uma compreensão espiritual viva e profunda dos textos sagrados. Quando Maria o questionou, angustiada ("Filho, por que fizeste isto conosco?"), Jesus respondeu com as suas primeiras palavras registadas nos Evangelhos:"Por que é que me procuráveis? Não sabíeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?" (Lc 2.49).