sábado, 28 de fevereiro de 2026

Honra e responsabilidade

A compreensão dos textos bíblicos muitas vezes exige uma análise que vai além da leitura superficial, levando em conta o contexto cultural e as particularidades das expressões utilizadas no texto. Então, para tratar um assunto tão importante sobre a herança espiritual, tendo como base o profeta Elias, faz-se necessário primeiramentte discorrer na Palavra sobre a "porção dobrada". Na Bíblia, além do significado cultural do direito do primogênito relatado no Pentateuco, mais precisamente no livro de Deuteronômio, na qual o primogênito recebia o dobro da herança, assim sendo, a porção dobrada representa o duplo da honra e responsabilidade (Dt 21.17). Assim sendo, a porção dobrada pedida por Eliseu a Elias no segundo livro dos Reis, simboliza, de igual modo, a herança espiritual e autoridade de um primogênito. É certo que, a porção dobrada, não significa ter o dobro de autoridade, mas sim o direito legítimo de suceder ao líder espiritual, continuando seu ministério e legado com a unção de Deus para, apenas poder continuar com eficiência a missão de seu antecessor. “Havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que eu te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja sobre mim dobrada porção de teu espírito. Respondeu Elias: Coisa difícil pediste. Todavia, se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não, não se fará” (2 Rs 2. 9-10). O profeta Eliseu pediu a Elias porção dobrada do Espírito de Deus sobre ele. Na verdade o que ele queria é a presença do Senhor em sua vida e ministério, assim como Ele tinha sido com o seu antecessor. O Altíssimo daria parte de unção aos seus servos? Certamente que não, mas entendendo biblicamente que a preocupação do coração do profeta foi concedida por Ele pois viu Elias sendo tomado. Eliseu entendia da necessidade imprescindível da presença dEle no ministério, como Moisés chegou a comentar que se o Senhor não fosse com ele, não continuaria sua liderança no meio do povo: "Se a tua presença não for comigo, não nos faças subir daqui" (Ex 33.15). Sábia decisão dos servos dEle quando se focam mais em estar com Ele do que se achar ou colocar como referência em alguma coisa na sua obra, pois ela é de Deus e não humana. Fazendo assim estaremos ajudando aqueles que estão na nossa volta a se aproximar mais do Altíssimo e não ao contrário.

Somos o que comemos

A Bíblia aborda a alimentação tanto no sentido físico (cuidado com o corpo/templo) quanto espiritual (consumo de conhecimento/palavra). Destaca-se a moderação, o cuidado para não escandalizar outros, e o foco espiritual em Jesus como "pão da vida", onde somos moldados pelo que nutrimos nossa alma (Jo 6; 1 Co 10.23-33). Assim sendo, espiritualmente, de igual modo, "somos o que comemos", pois Deus falou com o profeta Samuel que o homem vê a aparência externa, mas o Senhor olha para o coração, mostrando uma necessidade de manutenção do bem-estar espiritual (1 Sm 16.7). O que consumimos (músicas, conversas, leitura) molda nosso coração e mente, indicando que devemos nos alimentar da Palavra de Deus para ter vida. No texto citado no Evangelho segundo o apóstolo João, Jesus se apresenta como o "pão da vida", ensinando que nutrir-se dele é essencial para a vida eterna: “que suas palavras são espírito e que elas são vida” (Jo 6:63). O evangelista Mateus ao descrever o ato da ceia assim expressou as palavras de Jesus ao segurar o pão: "Tomai, comei, isto é meu corpo." E enquanto segura a taça, diz: "Bebei dele todos; porque isto é meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados" (Mt 26.26-28). Já Paulo na epístola aos Coríntios ensina que o corpo é o templo do Espírito Santo, incentivando o cuidado e a moderação na alimentação, evitando excessos. E, em outra ocasião, exorta a nos alimentar espiritualmente banqueteando-nos com a Palavra de Deus (2 Tm 2.15). Destaca ainda que, embora haja liberdade para comer de tudo, não se deve comer algo que escandalize a consciência de um irmão (1 Co 10.23-33). Do mesmo modo, o sábio adverte contra o excesso, como em Provérbios, que alerta contra comer mel demais, simbolizando a busca por equilíbrio e moderação (Pv 25.27). Enfim, a orientação divina enfatiza que, enquanto cuidamos do corpo físico com sabedoria, o foco principal deve ser a nutrição da alma através da Palavra e dos ensinamentos de Jesus.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Somos o que falamos

Em uma época em que a linguagem vulgar parece se tornar cada vez mais comum – em músicas, redes sociais, filmes e até mesmo em ambientes de trabalho faz-se importante refletir sobre o que a Bíblia ensina a respeito da maneira como falamos. As palavras não são neutras. Elas têm poder para edificar ou destruir, abençoar ou ferir. Por isso, o cristão é chamado a santificar também a sua fala e perversidades nem devem ser nomeadas entre cristãos, conforme exortação bíblica encontrada em Efésios. O apóstolo Paulo escreveu: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29). "A prostituição e toda a impureza nem ainda se nomeie entre vós" mostrando que o cristão deve manter a pureza moral, pois a imoralidade sexual, impurezas e a cobiça não devem sequer ser mencionadas como prática entre os fiéis, visando a separação das trevas (Ef 5:1-2). No contexto bíblico, chocarrices referem-se a piadas grosseiras, gracejos indecentes, zombarias ou conversas tolas e inconvenientes que desonram a Deus e ferem o próximo (Ef 5.4). Tiago lembra que “da mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim!” (Tg 3.10). Jesus disse que a boca fala do que está cheio o coração (Lucas 6:45). Enfim, a boca deve ser instrumento para glorificar a Deus e transmitir vida aos que nos ouvem: “Que a palavra dita por vocês seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibam como devem responder a cada um” (Cl 4.6).

Ensinando a Palavra

O Antigo Testamento mostra que a Lei do Senhor estava intrinsicamente ligada à vida de todo o povo e, por isso, ela também era o elemento aglutinador que formava a identidade dos judeus. Assim, Esdras estava ciente de que para iniciar a reconstrução religiosa do povo era necessário começar pelo ensino da Lei do Senhor, pois sem ela não há identidade espiritual nem moral. Deus falou: “Ajunta-me o povo e os farei ouvir a minha palavra, para que me temam todos os dias que na terra viverem” (Dt 4.10). E continua: “Guarda os mandamentos do Senhor para o temer” (Dt 8.6). Por fim, o próprio Deus ordenou que a sua Palavra fosse ensinada a todo o povo de sete em sete anos (Dt 31.9-12). Pelo temor a Deus o crente se aparta do mal (Pv 3.7), se desvia do mal (Pv 16.6), e aborrece o mau caminho (Pv 8.13). Além da leitura da Lei de Moisés, que se fazia a cada sábado (At 15.21), os Escritos e os Profetas deveriam ser lidos e explicados ao povo, em convocação solene, a cada sete anos. Jesus ordenou o ensino da sua Palavra e que seus discípulos ensinassem todas as nações a guardarem tudo o que lhes tinha mandado (Mt 28.19,20). Em continuidade histórica e temporal, Paulo conhecia a importância do ensino da Palavra: “Conjuro-te pois diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo… que pregues a palavra…” (2Tm 4.1,2). Como resultado do ensino da Palavra, o povo confessa os seus pecados, aparta-se de deuses estranhos, adora ao Senhor Deus, e com Ele faz firme concerto (Ne 9.13,38), porque a Palavra de Deus é o PODER de Deus (Rm 1.1). O apóstolo continua: “O que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (2Tm 2.2). “Se é ensinar, haja dedicação ao ensino” (Rm 12.7). O conhecimento consolida a força (Pv 24.3), porque pelo conhecimento podemos saber o que nos é dado gratuitamente por Deus (1Co 2.12). Pelo conhecimento da verdade podemos alcançar plena libertação (Jo 8.32). Pelo conhecimento podemos saber que Deus quer que todos os homens venham ao conhecimento da verdade (1Tm 2.4). Pelo conhecimento podemos saber como agradar a Deus, pois não é resultado da nossa própria força, mas o próprio Deus nos dá graça para agradá-lo (2Co 5.9). Ainda sobre a importância do ensino, é indubitavelmente salutar, pois é o elemento central para o desenvolvimento e a criação do caráter cristão. O ensino da Palavra implanta normas espirituais nos crentes como o que aconteceu na igreja de Corinto que foi enriquecida pelo ensino da Palavra de Deus (1Co 1.5). Essas normas dão forma às manifestações da Nova Vida naquele que se converte, naquele que, pela operação do Espírito de Deus, passa a andar nos estatutos de Deus (Ez 36.27). O salvo em Cristo deve ser honesto a toda prova (Rm 12.17; 2Co 8.21; Fp 4.8; 1Pe 1.12; Hb 13.18), jamais mente (Is 63.8; Ef 4.25; 1Jo 2.28) ou tem o testemunho de sua consciência, no Espírito Santo, de que não mentiu (Rm 9.1), porque Jesus disse: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não, porque o que passa disso é de procedência maligna” (Mt 5.37). O cristão não se apodera de alguma coisa que não seja dele: “Aquele que furtava não furte mais” (Ef 4.28), assim como Zaqueu depois de salvo queria restituir e restituiu aquilo que havia defraudado (Lc 19.8) pois agora vive uma vida moral que é exemplo de pureza. Enfim, o convertido jamais dá falso testemunho de alguém (Êx 20.16; Pv 10.18; Tg 4.11).

Ensinando com dedicação a verdade

A interpretação da Bíblia, ainda que os estudiosos bíblicos tenham a função de interpretar as Sagradas Escrituras, esse trabalho não compete somente a eles, pois Ela é viva. É certo que a leitura e a vivência dos textos bíblicos vão além das análises acadêmicas, já que os Livros Sagrados não são apenas um conjunto de livros históricos, mas a Palavra de Deus. E essa Palavra se torna atual e responde aos questionamentos e angústias do homem pós-contemporâneo. Por isso, a leitura e o estudo bíblico devem ser feitos por todos, uma vez que proporcionam uma experiência de fé prática e atual. Nas Escrituras Sagradas a tarefa de “ensinar” é classificada como um dom divinamente concedido aos crentes. Na epístola aos Romanos, Paulo enfatiza que segundo a graça que nos é dada recebemos do Senhor “diferentes dons” (Rm 12.6a). Na sequência dessa elucidação, o apóstolo enumera alguns desses diferentes dons, a saber: o de profetizar, o de servir, o de ensinar, o de exortar, o de contribuir, o de presidir, e o de exercer misericórdia (Rm 12.6-8). Para cada um dos dons dessa lista, Paulo explica em uma única frase, sobre como eles devem ser usados por aqueles que o receberam. Nesse ponto, convém destacar que essa lista não contém todos os dons (1 Co 12.8-10, 29; Ef 4.11). Não obstante, quando o apóstolo se refere ao dom de ensinar a Bíblia é enfática em destacar a exigência da dedicação: “se é ensinar; haja dedicação ao ensino” (Rm 12.7b). Há aqui uma instrução bem clara, que, quem possui o dom de ensinar deve se dedicar com zelo e esmero, um aprimoramento contínuo. Ensinar é um chamado, não apenas uma função, exigindo estudo e compromisso fiel com a verdade bíblica.