A Bíblia pela Bíblia
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sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Não a destruirei, por amor dos dez
A intercessão de Abraão em Gênesis 18 é um dos textos teológicos mais profundos do Antigo Testamento.
Ela estabelece bases fundamentais sobre a natureza de Deus e o papel do ser humano na oração.
Esta frase faz parte do famoso diálogo de intercessão entre Abraão e Deus registrado no livro de Gênesis, nela Abraão roga pela cidade de Sodoma.
O contexto da intercessão de Abraão abrange uma negociação com Deus diminuindo o número de justos de cinquenta até chegar a dez.
O texto demonstra a misericórdia divina e o poder da súplica em favor de outros.
No desfecho da narrativa, não havia nem mesmo dez justos na cidade, mas Ló e sua família foram salvos antes da destruição.
O texto reafirma que Deus não pune o inocente junto com o culpado (Ex 34.7, Naum 1.3).
Enfim, o Criador se submete ao diálogo e ouve pacientemente os apelos humanos.
Estabelecerei o meu concerto entre mim e ti
No contexto histórico do Segundo Milênio a.C., os povos da Mesopotâmia e de Canaã adoravam múltiplos deuses locais.
O pacto de Abraão marca a transição para um monoteísmo ético e exclusivo.
Um único Deus escolhe uma família específica para se revelar à humanidade, exigindo fidelidade total e um comportamento moral diferenciado das nações vizinhas.
O texto registra a promessa de uma aliança perpétua entre Deus, Abraão e os descendentes dele, selando a promessa de ser o Deus deles e de dar-lhes a terra de Canaã.
Na verdade é um pacto duradouro para todas as gerações futuras, e que Abraão seria pai de muitas nações e que reis descenderiam dele.
Nisso também está implícito a doação da terra de Canaã como possessão perpétua e a circuncisão de todos os homens como marca física da aliança.
O pacto com Abraão é o fundamento teológico, cultural e geográfico que moldou a história do Antigo Oriente Médio e deu origem às três grandes religiões monoteístas do mundo (Gn 17.7).
O custo de uma separação
As escrituras registram vários embates entre os descendentes de Isaque e os povos ligados a Hagar e Ismael.
Eles foram mercadores ismaelitas que compraram José (filho de Jacó) como escravo de seus próprios irmãos e o levaram para o Egito (Gn 37.28).
Nos livros de Crônicas e Salmos, os descendentes de Hagar (agarenos) aparecem em guerras diretas contra as tribos de Israel por território.
Essa divisão entre irmãos é a raiz da separação teológica entre o Judaísmo/Cristianismo (via Isaque) e o Islamismo (via Ismael, de quem o profeta Maomé é considerado descendente direto).
Enquanto a Bíblia afirma que o sacrifício no Monte Moriá seria de Isaque, a tradição islâmica (no Alcorão) defende que o filho a ser sacrificado era Ismael.
A genealogia oficial de Ismael e os fundadores das doze tribos ismaelitas estão registrados na Bíblia em Gênesis e no primeiro livro das Crônicas (Gn 25.12-16, 1 Cr 1.29-31).
A Palavra define claramente o território dessas doze tribos (Gn 25.18).
Segundo ela, eles habitaram a região que vai de Havilá até Sur.
Geograficamente, isso corresponde à área a leste do Egito, ao longo da rota em direção à Assíria (o que hoje compreende a maior parte da Península Arábica e o deserto do Sinai).
O texto afirma ainda que eles viveram em constante hostilidade ou "separados" de seus irmãos israelitas.
Há um ditado antigo que ainda é utilizado com eficácia: "dividir para enfraquecer".
Esperando no tempo de Deus
Sarai era estéril e não conseguia dar filhos a Abrão e disse: "Entra, pois, à minha serva; porventura, terei filhos dela" (Gn 16.2).
Naquela época, no Antigo Oriente Médio, era um costume legal e aceito que uma esposa estéril oferecesse sua serva ao marido para gerar herdeiros em seu nome.
Deus havia prometido uma grande descendência a Abrão, mas o casal estava envelhecendo.
Abrão aceitou a proposta. A serva egípcia, chamada Hagar, engravidou e deu à luz Ismael, o primeiro filho de Abrão.
A decisão de Sarai desencadeou uma série de conflitos familiares profundos.
As tensões começaram imediatamente e afetaram gerações.
Assim que Hagar engravidou, ela começou a olhar para Sarai com desprezo.
Sentiu-se superior por ter alcançado o que a patroa não conseguia.
Sentindo-se humilhada em sua própria casa, Sarai culpou Abrão pela situação, argumentando que a afronta de Hagar era injusta.
Para pacificar a esposa, Abrão deu a Sarai autoridade total sobre a serva. Ele disse: "A tua serva está nas tuas mãos; faze-lhe o que bem te parecer".
Sarai passou a tratar Hagar com tanta severidade que a serva, grávida, fugiu para o deserto.
Hagar só voltou para casa após um encontro com um anjo do Senhor, que lhe ordenou que se humilhasse sob as mãos de Sarai, mas prometeu multiplicar sua descendência.
Anos mais tarde, a promessa de Deus se cumpriu e Sara deu à luz Isaque.
Durante a festa de desmame de Isaque, Sara viu Ismael (então adolescente) zombando do irmão mais novo.
Sara exigiu que Abrão expulsasse Hagar e Ismael. Ela declarou que o filho da escrava não dividiria a herança com Isaque.
A exigência causou grande desgosto a Abraão, pois Ismael também era seu filho.
No entanto, Deus orientou Abraão a ouvir Sara, garantindo que cuidaria de Ismael.
Hagar e o jovem foram enviados ao deserto com pão e um odre de água.
Deus cumpriu a promessa feita a Abraão de também abençoar Ismael.
Ele gerou 12 príncipes (chefes de tribos), que se estabeleceram no deserto e deram origem aos povos ismaelitas e, historicamente, ao povo árabe.
Promessa de Deus tem tempo certo!
Altar, um local de encontro
O contexto histórico de Canaã na época de Abrão (por volta de 2000 a.C. a 1800 a.C.) corresponde à Idade do Bronze Médio.
Canaã funcionava como uma ponte terrestre entre as maiores potências da Antiguidade: o Egito ao sul e a Mesopotâmia ao norte.
Este período foi marcado por uma fragmentação política, forte influência do Egito e uma cultura religiosa politeísta ligada à agricultura.
Os povos locais adoravam um vasto panteão de deuses que personificavam as forças da natureza.
O deus supremo era El (o criador), mas a divindade mais ativa e cultuada era Baal (deus das tempestades, da chuva e da fertilidade), juntamente com deusas como Aserá e Astarote.
Os cultos eram realizados em santuários ao ar livre conhecidos como "lugares altos" (geralmente colinas ou bosques, como o carvalho de Moré).
Quando Abrão edifica um altar ao Senhor em Siquém, ele está a estabelecer um local de adoração ao Deus único no meio de um território profundamente politeísta
E apareceu o SENHOR a Abrão e disse: À tua semente darei esta terra. E edificou ali um altar ao SENHOR, que lhe aparecera” (Gn 12.7).
Abrão sai de Harã e chega até o carvalho de Moré, em Siquém, onde a promessa é feita.
A região prometida é Canaã, que mais tarde se tornaria a terra de Israel.
A palavra "semente" (ou descendência) aponta tanto para o povo de Israel quanto, em sentido maior na teologia bíblica, para Cristo.
Deus garantiu a terra à "semente" (descendência) de Abrão, no entanto, naquele momento, Abrão não tinha filhos e a terra estava ocupada pelos cananeus.
A fé exige confiar na Palavra de Deus mesmo quando as circunstâncias ao redor parecem contraditórias.
Significa viver com base na herança eterna e nas promessas futuras, e não apenas no que os olhos veem no presente (2 Co 5.7).
A primeira reação de Abrão ao receber a promessa foi erguer um altar.
Ele não construiu uma fortaleza para si, mas um lugar de adoração para Deus!
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