quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Perdão, Agostinho

Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Esse foi o questionamento dos escribas e fariseus de Jerusalém a Jesus de não lavar a mão quando comem... Os costumes recebidos, sem sombra de dúvidas, são norteadores e têm influência. A tradição é demais persuasiva e repassa-se formas de viver e ideias. O perigo para o cristão (digo eu) é ser preso segundo as coisas desse mundo e não de acordo com a Palavra: pela tradição desprezar o mandamento. Há, entretanto, coisas boas nela, entre outras situações, pois mostra-se forte para livrar de más inovações. Por exemplo, a modernidade aponta caminhos de liberdade, que muitas vezes são na verdade são caminhos de libertinagens, nos confundindo... O sinal de alerta deve estar ligado principalmente em relação à quebra de “prisões dogmáticas”, que são limites para nosso próprio bem... A tradição é poderosa e devemos sempre discernir o Mandamento dentro dela, pois ele é eterno... Por outro lado, quando ela contrariar a doutrina bíblica que é a regra de fé do crente, sim, aí devemos com cuidado zelar pelo mandamento e rejeitarmos as suas falsas insinuações. Bem, nesse contexto entra pecado original, como uma suposta herança maldita, divórcio, como algo moderno e avançado, segundo e terceiro casamento, agora são formas de ajustes, pregar o evangelho onde tem igreja é uma forma de “disputa santa”, consagração de obreiros para fins eleitorais e outros, é normal, o suco de uva da ceia, na época de Jesus era sem álcool por causa do termo “fruto da vide” e o vinho com álcool seria então “fruto da oliveira”, ou seja, se transforma conselhos bíblicos em doutrinas? Por acaso a doutrina bíblica precisa de complementos ou remendos? Somos nós agora melhores do que a doutrina Santa? A tradição é muito forte e temos que analisar com cuidado se vale a pena desmontá-la totalmente, pois ela pode estar servindo de “limite antigo” como no caso dos usos e costumes. Bem, pecado original, me desculpe Agostinho (Confissões), que muito contribuiu para o entendimento bíblico e interpretação da Palavra, e ainda contribui, mas o que passa para o ser humano é a morte, morte espiritual.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Provando do fino trigo e mel da rocha

O salmista ao contar a história da libertação do povo de Israel do Egito, lembra do convite divino ao povo a confiar nEle e a expressar as suas necessidades e louvores. Abrir a boca significa clamar e estar pronto para receber o sustento, a orientação e a palavra de Deus, que promete suprir todas as necessidades. O salmo cita textualmente que o Altíssimo "tirou o peso dos seus ombros", uma referência direta à escravidão egípcia e à abertura do Mar Vermelho. Embora o salmo comece com uma celebração alegre cheia de pandeiros, harpas e trombetas, o tom muda bruscamente a partir do versículo 8. O contexto histórico aqui revela uma crise espiritual: o povo mantinha o ritual religioso exterior (as festas e sacrifícios), mas o coração estava entregue à idolatria e à desobediência. É nesse cenário de repreensão amorosa que o Senhor diz: "Abre bem a tua boca, e eu a encherei", lembrando ao povo que eles não precisavam recorrer a deuses falsos ou estrangeiros para ter fartura, pois o verdadeiro Libertador estava pronto para suprir tudo. No Médio Oriente Antigo, o trigo e o mel eram símbolos máximos de prosperidade e favor divino. Quando o Eterno usa estas imagens no encerramento do salmo, Ele está a contrastar a miséria espiritual da rebeldia com a superabundância da Sua provisão. Na agricultura daquela época, o "fino trigo" (ou a "flor do trigo") referia-se à melhor parte da colheita — o grão mais limpo, puro e nutritivo, usado para fazer o pão da mais alta qualidade. Deus não promete apenas a sobrevivência ou o básico para o Seu povo (como o maná no deserto), mas sim o melhor que a terra pode produzir. De igual modo, na Palestina, as abelhas silvestres costumavam construir os seus favos nas fendas das rochas escarpadas e áridas. Encontrar mel numa rocha era um bónus inesperado e valioso num ambiente tão hostil. Assim sendo, Ele é capaz de extrair doçura, nutrição e alegria dos lugares mais secos, duros e improváveis da vida. Mesmo em períodos de "deserto" ou de dificuldade (as rochas), Ele manifesta a Sua graça. Enfim, a escassez que o povo passava era resultado imediato e consequência do desvio espiritual.

domingo, 4 de outubro de 2026

Crescendo perante Deus e os homens

Há a necessidade do cristão crescer de forma íntegra, moderada e completa. Significa desenvolver o caráter de Cristo no dia a dia através da manifestação de frutos. Isso aconteceu na vida de Samuel pois a Bíblia diz: "E o jovem Samuel ia crescendo, e fazia-se agradável, assim para com o Senhor, como também para com os homens" (1 Sm 2.26). O texto mostra que o menino se desenvolvia não apenas em estatura física, mas também no favor e na graça diante de Deus e das pessoas ao seu redor que notavam o seu desenvolvimento (1 Tm 4.15). O amadurecimento e a evolução pessoal não devem ser ocultos; eles precisam se tornar visíveis e evidentes para as pessoas ao redor, servindo de testemunho e inspiração. O próprio Jesus, ao assumir a natureza humana, passou pelo processo natural de amadurecimento físico, intelectual e espiritual: "E o menino crescia, e era fortalecido em espírito, e cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele" (Lc 2.40). Todos os anos, a família de Jesus viajava de Nazaré a Jerusalém para a festa da Páscoa, cumprindo a Lei de Moisés. Aos 12 anos, de acordo com a tradição judaica da época, o jovem estava na idade de transição para se tornar formalmente responsável pelos seus atos religiosos perante a comunidade (um prelúdio do que viria a ser o Bar Mitzvah). No final das festividades, Maria e José iniciaram a viagem de regresso a Nazaré em uma grande caravana de parentes e conhecidos. Pensando que o menino estava entre o grupo, caminharam um dia inteiro antes de dar pela sua falta. Ao notar a ausência de Jesus, voltaram a Jerusalém para procurá-lo. Jesus estava sentado no meio dos doutores da lei — os maiores teólogos, rabinos e mestres do judaísmo da época. Ele não estava a pregar com arrogância, mas a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas, demonstrando profundo respeito e interesse pelas Escrituras. O versículo 47 destaca que "todos os que o ouviam admiravam-se da sua inteligência e das suas respostas". A sua sabedoria não era mero acúmulo de regras, mas uma compreensão espiritual viva e profunda dos textos sagrados. Quando Maria o questionou, angustiada ("Filho, por que fizeste isto conosco?"), Jesus respondeu com as suas primeiras palavras registadas nos Evangelhos:"Por que é que me procuráveis? Não sabíeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?" (Lc 2.49).

Remindo o tempo

As distrações modernas são o equivalente contemporâneo ao "sono espiritual" de que a Bíblia tanto avisa. Remir o tempo significa resgatá-lo ativamente das mãos das distrações banais. Hoje, o perigo raramente se apresenta como um convite explícito para abandonar a fé; ele surge na forma de uma sobrecarga de estímulos diários que anestesiam a nossa mente e roubam o nosso tempo com Deus. As redes sociais, o entretenimento em streaming, as notificações constantes e o ativismo frenético funcionam como uma espécie de "ruído branco" que nos distrai sem percebermos. O apóstolo exorta aos crentes em Éfeso : "Vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porquanto os dias são maus" (Ef 5.15-16). A Escritura usa o "dormir" de forma metafórica para alertar sobre a apatia, a negligência e a falta de vigilância espiritual. Quem está "a dormir" espiritualmente vive de forma descuidada, misturando-se com os caminhos do mundo e esquecendo-se da urgência do Reino. No texto, o apóstolo Paulo repreende a igreja de Corinto por causa da maneira desrespeitosa e dividida como celebravam a Ceia do Senhor. Alguns participavam de forma indigna, sem discernir o significado espiritual do sacrifício de Cristo e desprezando os irmãos necessitados. Por essa razão disciplinar e espiritual, Paulo afirma: "Por causa disso, há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem [morreram]" (1 Co 11.30). O alerta de Paulo permanece: "E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitámos a fé" (Rm 13.11) e, ainda, aos tessalonicenses: "Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos e sejamos sóbrios" (1 Ts 5.6).

Quebrantado e contrito de espírito