domingo, 4 de outubro de 2026

Rejeitado em Nazaré

Jesus, o nazareno, foi rejeitado em Nazaré? Sim. Sua própria família pensava que ele tinha enlouquecido? Sim. Ele atraía multidões tão grandes que nem ele nem os discípulos conseguiam comer. Ao saberem disso, os seus familiares saíram para o prender à força. No mundo mediterrâneo antigo, a identidade de uma pessoa estava estritamente ligada à sua família e à sua vila. Todos sabiam quem você era, quem eram seus pais e qual era o seu status social. Nazaré era um vilarejo agrícola muito pequeno e pobre (estimado em algumas centenas de habitantes). Quando Jesus começa a falar com profunda autoridade teológica, a reação imediata do povo é de choque e ceticismo: "Não é este o filho de José?" (Lc 4.22). Vários profetas indicaram que o Messias seria rejeitado, desprezado ou de origem humilde. Naquela época, a região da Galileia e a vila de Nazaré eram vistas com desdém pela elite religiosa de Jerusalém (como mostra a pergunta de Natanael: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" (Is 11.1; Mt 2.23; Jo 1.46). Para os nazarenos, um jovem local da classe trabalhadora (tektōn) não tinha o direito de se posicionar como um mestre ou profeta acima dos anciãos da comunidade. Isso quebrava a ordem social e era visto como uma afronta à honra coletiva da vila. Além do episódio em Nazaré, os Evangelhos registam vários momentos em que a relação de Jesus com a sua família biológica e com a sua terra natal é posta à prova, revelando tensões e uma clara redefinição de prioridades espirituais sobre os laços de sangue (Mc 3.20-21). Próximo da Festa dos Tabernáculos, os irmãos de Jesus desafiaram-no a ir para a Judeia e a manifestar-se publicamente ao mundo para ganhar seguidores. O tom deles, porém, era de ironia (Jo 7.1-5). "Porque nem ainda os seus irmãos criam nele" (Vs. 5). Os seus irmãos biológicos (como Tiago e Judas) só se converteram e assumiram papéis de liderança na Igreja após a ressurreição de Jesus. Noutro momento em que regressa à sua terra, o povo escandaliza-se com a sua sabedoria. Eles listam os nomes dos seus irmãos (Tiago, José, Simão e Judas) e mencionam as suas irmãs para demonstrar que ele era apenas mais um cidadão comum. Jesus profere a famosa frase: "Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa" e o texto de Mateus conclui dizendo que Jesus "não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles" (Mc 6.1-6). Enfim, há em Jesus um sinal contraditado, como demonstrada a sua entrada em Jerusalém montado num jumento (uma cria de jumenta), simbolizando a chegada de um rei humilde e pacífico, em contraste com os conquistadores militares que usavam cavalos (Zc 9.9; Mt 21.4-5).

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