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quarta-feira, 23 de setembro de 2026
O caos e as trevas
No pensamento ocidental moderno, tendemos a associar o "caos" e as "trevas" ao pecado ou ao demónio.
Mas, as trevas não eram apenas um elemento físico, mas representavam o estado de ocultação, mistério e potencial.
Não se trata de uma força maligna rival de Deus, mas sim do "cenário" inicial que aguardava a primeira ordem criativa: "Haja luz".
O abismo na Bíblia é totalmente impessoal, uma matéria inanimada e sem poder próprio, completamente submissa à soberania de Deus.
O texto introduz o Espírito de Deus (Ruach Elohim) pairando (merachepet) sobre as águas. Essa palavra (merachepet) carrega a ideia de uma ave chocando ou cuidando do ninho, mostrando que, apesar do caos (tohu va-bohu) e da escuridão do abismo, a presença divina já estava gerando e preparando o ambiente para a ordem.
Contudo, na teologia de Gênesis, as trevas sobre o abismo não representam o mal moral, mas sim a ausência de ordem e a pura potencialidade.
A tensão dialética entre o caos inicial e a ordem divina é um dos eixos mais profundos da teologia bíblica.
A transição do caos para a ordem é, fundamentalmente, um ato de amor.
É certo que um universo puramente caótico é hostil e impossível de habitar.
Ao organizar as águas, criar a luz e estabelecer as estações, Deus está a construir um lar.
A teologia da criação vê o cosmos como um templo ou uma casa cósmica preparada meticulosamente por Deus para receber a humanidade e as outras criaturas.
Segundo a Bíblia, Ele separa o dia da noite, as águas de cima das águas de baixo.
A ordem teológica consiste em colocar cada elemento no seu devido lugar para que a vida possa florescer.
É certo que o verdadeiro valor espiritual é lapidado nas provações e na coerência diária com os princípios divinos, longe da ânsia por validação alheia.
Assim sendo, a expressão "Basta que Deus veja" implica que a aprovação ou o conhecimento divino são suficientes.
A Bíblia destaca que o objetivo do crente deve ser agradar a Deus, que examina o coração, e não buscar glória perante os homens (1 Ts 2.4).
Enfim, nem tudo o que acontece ou dá certo na terra significa uma aprovação irrestrita de Deus.
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