quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Amaldiçoa a Deus e morre

A Bíblia não reprime explicitamente a esposa de Jó após a sua famosa e controversa frase ("Amaldiçoa a Deus e morre"), mas o próprio Jó a repreende diretamente, chamando a sua atitude de insensata (Jó 2.10). Uma evocação direta à resposta firme de Jó à sua mulher no meio da maior das provações: "...como uma louca falas tu...". Quando tudo parecia desmoronar — a perda dos bens, dos filhos, da saúde e até o apoio daqueles que o cercavam —, a tentação humana era ceder à revolta, à amargura ou a uma fé estritamente transacional, onde Deus só é abençoado quando retribui com conforto temporal. A postura de Jó desmascara a superficialidade de uma religiosidade baseada apenas no aplauso e na bonança. Questionar a soberania de Deus ou exigir que Ele preste contas do sofrimento é esquecer que a nossa aliança com o Criador é incondicional. Como o próprio patriarca afirmou: "Porventura receberemos de Deus o bem, e não receberemos a desgraça?" É certo que no cadinho da aflição é que se distingue o verdadeiro adorador do mero ativista religioso. Enquanto o superficial se escandaliza e abandona o caminho ao primeiro sinal de contrariedade, aquele que realmente conhece a Deus — que vive a intimidade do "quarto secreto" e não o barulho dos palcos — permanece inabalável na posição que o Senhor lhe confiou, sabendo que nem a dor nem o silêncio anulam a fidelidade d'Aquele que sustenta a nossa âncora até ao fim.

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